“Boadrasta” – história de uma mulher que aprendeu a cuidar e amar a enteada

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A convidada deste mês tem uma história incrível e diferente de “maternidade”: “boadrasta” ou “mãedrasta”, é a história de uma mulher que aprendeu a amar e cuidar da enteada e admirar o contato tão intenso que o marido tem com a filha!

Confiram o incrível relato da Tatiana Lambert, a mulher que sempre falou que não queria ser mãe e ganhou de Deus o kit completo: marido e “filha” e que eu conheci no Instagram, pois ela acompanha meus lanches escolares para ajudar nas dicas de preparo das lancheiras da enteada. Muito amor, genteee!!!

 “… o padre pergunta se criaremos, educaremos e amaremos os filhos que Deus nos enviar; não fala de que forma esses filhos virão a nós, se gerados no ventre ou não.”

“Você cuida tão bem dela, daria uma ótima mãe!”

“Como assim ‘nunca quis ter filhos’? Toda mulher sonha em ser mãe!”

“Seu marido sabe que você não quer ter filhos???”

“Então você não gosta de crianças, né?”

“Quando você se formar / quando fizer 30 anos / quando conhecer o cara certo / quando blah blah blah, você vai querer ter filhos!”.

Quem nunca ouviu alguma das frases acima, atire a primeira pedra! Eu ouvi várias vezes e de várias pessoas!

Confesso que jamais imaginei que me casaria com alguém “com kit”. Tipo aquele meme “logo eu”… Logo eu, que nunca quis ser mãe. Entretanto, aconteceu, e é uma história bem curiosa de como o mundo gira e as pedrinhas se encontram.

Sou Tatiana Lambert e casei-me com João, um colega de escola.

#1 O reencontro

Estudamos juntos dos 7 aos 12 anos: mesma escola, mesma sala de aula. Chegamos a cursar o mesmo curso, na mesma faculdade, mas nunca nos vimos por lá. Em 2012, uma colega de classe dos tempos de escola, cogitou fazer um encontro da nossa turma, mas o grupo na rede social não se engajou muito na ideia.

Virtualmente, passamos a conversar quase que diariamente; na época, eu tinha uma sobrinha com leucemia, ele acompanhou todo o processo, sempre muito gentil e atencioso. Quando ela faleceu, ele ficou arrasado; uma semana depois, meu avô morreu, e ele foi à missa de corpo presente.

O tempo passou e marcamos uma ida ao cinema; quatro dias depois, ele parou o carro em frente à minha casa e disse que tinha algo a me dizer. Passado o susto e reveladas as intenções, eu condicionei a aceitação do “pedido de namoro” a duas respostas: 1 Se ele tinha problemas com casamento; 2 Se queria ter outro filho. Como ele afirmou que sim, intencionava casar, e não, outros filhos não eram parte do plano, eu aceitei.

#2 A convivência com a filha do namorado

Os seis meses seguintes foram caóticos! Confesso que tive vontade de desistir, mas a terapia ajudou a persistir. Nesse período, observei a dinâmica que envolvia a pequena, fiz diversas ponderações com ele, e ultrapassado o “estágio probatório” a que fui compulsoriamente submetida, a convivência foi se estreitando.

Foi uma época de muito diálogo, de muitas colocações de ambas as partes para que tudo ficasse muito claro; eu precisava me adaptar ao fato de ter um namorado cujo tempo era bastante comprometido em função da paternidade.

Em maio de 2014, ficamos noivos. Enquanto escolhíamos alianças, questionei se era realmente isso que ele queria: casar, porém, não ter outros filhos. Diante da afirmativa, seguimos com os planos.

No mesmo ano, antes do Dia dos Pais, a mãe da menina comunicou que estava grávida do namorado, e que em função disso, mudaria para outra cidade, levando a menina. Jamais vou esquecer o que vi, o que senti e toda mágoa que preencheu meu coração quando cheguei em casa e vi meu noivo no quarto escuro, gritando em desespero, sem saber o que faria sem a filha por perto!

#3 O casamento e o nascimento da “boadrasta”

Pensando como advogados, decidimos antecipar a data do casamento civil; em dezembro de 2014, já com data marcada, fomos morar juntos. Lembro a alegria dela no dia em que fomos ver o apartamento com ela e os planos sobre o quarto. Aos 4 anos ela ganhou o primeiro quarto “próprio” e dormiu sozinha desde a primeira noite nele. Incentivei o hábito da leitura antes de dormir e virou rotina!

Virei uma “boadrasta”.

No dia do casamento civil, em janeiro de 2015, fui ao salão e, na volta, assim que ela me viu de cabelo e maquiagem prontos, disse que eu parecia a Princesa Elza! Achei muito engraçado e rimos muito dessa comparação enquanto eu a aprontava para sairmos todos juntos.

Houve um dia em que o segundo dentinho estava mole e montamos uma operação para retirar. Depois de muitas risadas e tentativas, o papai ganhou um dentinho de leite! Naquela noite, enquanto ela dormia, eu peguei um retalho branco, desenhei um dente, cortei e costurei à mão, decorei, perfumei, e o pai escreveu uma cartinha da fada do dente. No dia seguinte ela achou o “dente de pelúcia” e a moeda com a carta ao lado do travesseiro!

Casamos no religioso em novembro e ela participou dos preparativos, foi a diversas reuniões de fornecedores conosco e ficou comigo no “grande dia”… Enquanto eu era maquiada, filmada e fotografada, ela corria entre os profissionais, brincava com nosso cachorro e perguntava a toda hora quando seria a vez dela de se arrumar e outra vez, fiz o cabelinho dela para “o outro casamento do papai e da tia Tati”, como ela diz.

#4 Da guarda compartilhada

Em 2016, meu marido fez questão de compartilhar a guarda.

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Leia mais: GUARDA COMPARTILHADA, SUA FOFA!

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Seria um desafio e tanto, já que ela permaneceria conosco em semanas alternadas. E se eu já era “a louca” das roupas, sapatos e opções de lanches saudáveis, como uma “boadrasta” virei a louca do uniforme limpo.

Nunca pensei, na vida, que me preocuparia com horários de medicação, frequência escolar, e pautaria a vida em semanas com e sem ela! E foi o primeiro ano em que fizemos o aniversário dela… meio de improviso, mas com muito amor envolvido.

Tantas coisas boas, outras nem tanto, como quando ligaram da escola informando que ela havia caído e estava reclamando de dor no antebraço. Levamos ao hospital e foram 15 dias de braço engessado!

Em fevereiro desse ano, nas minhas férias, eu ia buscar na escola, dava almoço, ensinava tarefa, levava ao basquete… E mais recentemente, meu marido ficou uma semana de licença do trabalho para cuidar dela que teve chikungunya.

Eu chorei abraçada a ele no dia em que a levamos para coletar sangue, justamente o pior dia da crise, em que ela acordou chorando, vomitou, coçava a pele e reclamava de calor. Depois de medicada, dormiu, e eu chorei, chorei, chorei… Criança doente, naquele estado e eu com uma série de questionamentos não respondidos.

#5 O amor pela relação pai e filha

Costumo dizer às pessoas que, se eu morresse hoje, ficaria feliz de ter contribuído para a relação tão incrivelmente próxima de pai e filha. Tenho orgulho em dizer que ele é quem prepara as lancheiras da escola (a do horário regular e do período integral).

É inexplicável a sensação de ver o quanto eles são um para o outro: assistem TV embolados um no outro (risos), disputam partidas de vídeo game, cantam músicas e encenam coreografias no carro, cozinham e leem um livro diferente toda noite, antes de dormir; quando ele viaja, ela já me avisa que eu tenho que substituir o papai nessa função!

Sem falar nas diversas vezes em que alguém pergunta se sou a mãe e eu respondo que sou a madrasta. Ela corrige: “boadrasta, tia!“. Até “doutrinou” as professoras, para que me chamassem de tia Tati, assim como ela faz.

Fico feliz em dizer que ganhei um super abraço da professora, ao final do ano letivo de 2016, e esse ano recebi dela uma mensagem linda, no dia das mães. Até presente eu ganhei (e não foi do marido!): uma bolsa lindíssima!

Quando alguém quer saber se pretendemos ter filhos, meu marido costuma dizer que o padre pergunta se criaremos, educaremos e amaremos os filhos que Deus nos enviar; não fala de que forma esses filhos virão a nós, se gerados no ventre ou não. Ele diz que Deus sabia que eu não queria gerar, daí providenciou um kit completo para que esse amor todo pudesse ser canalizado e propagado.

É através dela que eu revisito dores da minha própria infância e juntas estamos trilhando caminhos para a felicidade. Torço para que, no futuro, ela seja uma mulher forte e independente, capaz de tomar as próprias decisões, fazer escolhas com consciência e sabedoria, com a certeza de que o pai e eu estaremos logo atrás, para o que for preciso.

Tatiana Lambert.

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